sexta-feira, 16 de março de 2012

MUDANÇA DA CAPITAL II

Aracaju

A palavra Aracaju é de origem tupi. Significa na opinião do alemão Carl Frederich Philipp von Martius (1794-1868), lugar dos cajueiros (ar-nascer; caju-fruto do cajueiro). Von Martius era biólogo membro da comissão científica bávara, e em 1817 chegou ao Brasil para visitar o país estudando espécies de plantas e coletando material etnográfico e fisiológico. É autor da obra “Como se deve escrever a História do Brasil”.
Já o baiano Teodoro Fernandes Sampaio (1885-1937) discorda e apresenta outra significação geralmente aceita pelos estudiosos da língua indígena: cajueiro dos papagaios (Ara-papagaio; caju fruto do cajueiro). Teodoro Sampaio era geólogo e historiador brasileiro, publicou vários livros: O tupi na geografia nacional (1901); Atlas dos Estados Unidos do Brasil (1908) ; e, em 1922, escreveu para a introdução geral do 1º volume, do Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil.
Está fora de qualquer dúvida a influência do cajueiro na denominação que os silvícolas deram ao lugar. O caju, aliás, exerceu um relevantíssimo papel na antropografia agrícola brasileira. Era na época da frutificação que se realizavam as migrações indígenas à procura dos cajus, nativos, mas raros, dando motivo às lutas entre tribos.









A história começou em 17 de março de 1855, através da resolução de nº 413, quando o então presidente da província, Inácio Barbosa, efetivou a mudança da capital, de São Cristóvão, quarta cidade mais antiga do Brasil, fundada em 1590 como capital da Capitania, para o povoado de Santo Antônio do Aracaju, elevando a categoria de cidade, e mais, a capital da província de Sergipe, suplantando outras vilas prósperas como Laranjeiras, Maruim e Estância.
O aspecto mais importante para a mudança, era a conjuntura nacional da época em que predominava o crescimento econômico no Estado através da zona açucareira, que até então era uma atividade desenvolvida pela Barra do Vaza-Barris, em São Cristóvão que naquele momento não oferecia condições geográficas adequadas para a instalação de um porto, onde o comércio pudesse ser feito diretamente.
Portanto, Aracaju foi escolhida, por ser considerada propícia ao desenvolvimento pela sua privilegiada localização, nas margens do rio Sergipe, a 5 km da foz, onde se podia erguer e manter um porto marítimo de que tanto necessitava para o escoamento de produtos da região.



Reação
Na verdade houve muito pouca resistência por parte da população de São Cristóvão, à mudança da capital. O político e historiador sergipano Felisbelo Firmo de Oliveira Freire (1858-1890), autor da História de Sergipe (1575-1855), assim a descreve: “a população de São Cristóvão, cujos interesses não se podem comparar, cujas tradições deviam estimular o patriotismo de seus habitantes, ficou indiferente ao atentado e consentiu facilmente na realização dos planos oficiais. Somente as velhas espreitavam das rótulas os carros que conduziam o cofre e os arquivos. Lançando pragas ao administrador”.

A única reação popular mais expressiva, que ficou registrada na história, segundo a oralidade popular, é que João Nepomoceno, alcunha de João Bebe Água, nascido em São Cristóvão, reagiu à transferência da capital trancando-se num quarto de sua residência, a beber aguardente em protesto e prometeu que de lá somente sairia com a anulação do ato, o que nunca aconteceu. Outra lenda diz que João Bebe Água, apesar de nunca ter estado na capital, expressaria sua revolta logo contida. Comprou várias dezenas de foguetes de artifícios, os quais pretendia soltar quando a sede da capital retornasse para a cidade de São Cristóvão. Nunca os usou. Os foguetes acabaram esquecidos em um canto da casa.

Inácio Barbosa
Natural da cidade do Rio de Janeiro, Inácio Joaquim Barbosa, filho de D. Rosa Francisca Barbosa e Inácio Joaquim Barbosa, ex-militar do 2º Regimento de Infantaria da 2ª Linha do Exército, nasceu na capital do Império a 10 de outubro de 1823, procedia de distinta família local, da qual pertencia o General do Exército Brasileiro, Manuel Felizardo de Souza e Melo, figura destacada na vida social, política e militar do 2º Império. Inteligente, vivaz e aplicado aos estudos, Inácio viveu infância e adolescência com os pais na Corte, onde estudou as primeiras letras e o secundário. Sentindo-se preparado para a vocação jurídica, no início de 1840, seguiu para São Paulo, em cuja Academia de Direito matriculou-se no primeiro anos do bacharelado. Dos 11 colegas de Inácio Barbosa, matriculados em 1840, somente oito concluíram o curso de Bacharel em ciências Jurídicas e Sociais no ano de 1844. Formado aos 21 anos de idade, Inácio Barbosa passa os primeiros anos advogando na Corte, onde se destacou com admiração e louvores de seus contemporâneos. Nomeado juiz municipal em 1846, da Paraíba do Sul na província do Rio de Janeiro, época em que se encontra pessoalmente, com o imperador. A boa impressão que dele teve D. Pedro, de certo modo facilitou-lhe a nomeação de secretário do Governo da província do Ceará, em 1848.
Nomeado oficial da Secretaria da fazenda em dezembro de 1850, continua, porém, como juiz municipal, não mais em Paraíba do Sul e sim na Corte. Como suplente de deputado teve oportunidade de representar com brilhantismo a província do Ceará por duas vezes na Assembléia geral, nos 8ª e 9ª legislaturas.
Por carta imperial de 7 de outubro de 1853, foi nomeado Presidente da Província de Sergipe, empossando-se no Governo a 17 de novembro seguinte. Em Sergipe notabilizou-se pela capacidade de trabalho e zelo ao bem comum da província, revelando-se um administrador preparado para exercer qualquer cargo público do país.
Querendo impulsionar o processo da província a que administrava, tomou acertadas medidas que ainda hoje se repercutem na vida do Estado de Sergipe. Segundo o historiador Clodomir Silva (1892-1932), em seu “O Álbum de Sergipe”, revelando sobre a realidade da província diz: “A situação política era tensa. Os partidos políticos se digladiavam, pondo em jogo todos os recursos e os mais inconfessáveis meios. Havia anarquia, havia desordens a que não era indiferente o partido dos “Rapinas” chefiado pelo comendador Sebastião Gaspar Almeida Boto”.
Em meio a essa efervescência política, pôs em prática o programa do governo de conciliação, e aquietaram os ânimos exaltados dos partidos políticos provincianos, despertando os sentimentos cívicos de espírito público dos sergipanos. Após conciliar os partidos políticos em torno, do bem da coletividade, seu governo passou a merecer melhor atenção dos seus governados.
Planejando a mudança da capital para Aracaju, Inácio Barbosa, tomou algumas providências, no sentido de preparar o povoado do Aracaju para receber o título de capital. Por isso foi necessário executar uma série de mudanças: Em janeiro de 1855 muda a mesa de Rendas da Barra dos Coqueiros para Aracaju; em 18 do mesmo mês cria uma agência de Correios; no dia seguinte muda a Alfândega; e no dia 26 cria a Sub delegacia de Polícia.
Em 21 de janeiro de 1855, numa carta assinada por Inácio Barbosa e pelo Barão de Maruim, a pretexto de realizar “uma reunião para tratar de negócios de interesses da província”, os deputados foram convocados a comparecerem no Engenho Unha de Gato, de propriedade do Barão. O resultado desse encontro foi à reunião da Assembléia Provincial em 2 de março em Aracaju.
O historiador Fernando Porto, em seu livro “A Cidade do Aracaju –1855/1865”, descreve a reação da Assembléia: “Ante a grandiosidade do projeto ou o seu imprevisto os deputados provinciais ficaram perplexos e a discussão se fez em ambiente sereno. Não porque faltassem oposicionistas, mas sua linguagem não foi tonitruante. Os próprios deputados do governo não pareciam muito acordes com as idéias do Presidente, de que resultou na falta de brilho na defesa do projeto. O panorama desolado das praias do Aracaju, com seus areais e seus brejos, desenrolando-se tão aos olhos dos deputados, não poderia deixar de exercer sobre eles uma ação negativa”.
Finalmente, em 17 de março de 1855, o projeto de Inácio Barbosa foi sancionado, elevando o pequeno povoado de pescadores à condição de maior centro de decisões da antiga província de Sergipe Del Rey. Inácio Barbosa, permanece como governador até ser acometido da conhecida “Febre de Aracaju” (cólera), em 10 de setembro de 1855, não viveu para ver o crescimento da cidade, falecera em Estância meses depois de sua fundação. Inácio era casado com Maria Gouveia Barbosa, filha do vice-Consul de Portugal Manuel Caetano Gouveia, com que teve duas filhas, Maria Guilhermina (1849) e Maria Joana (1850).



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